sábado, 20 de julho de 2013

A Morte: o Arcano XIII

Como prometido, aqui estou para comentar sobre um dos Arcanos mais mal interpretados no Tarot, A Morte. E para falar de tão afamada carta escolhi o filme "Um Olhar do Paraíso" que, acredito eu, a maioria deve conhecer. Antes de prosseguir, segue abaixo uma breve sinopse.
Filme: Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones/2009)
Aos 14 anos de idade, a inocente Susie Salmon não imaginava que seu vizinho gentil e recatado seria capaz de tramar seu assassinato tão friamente. Mas ele foi. E após sua morte, Susie foi para um mundo diferente, onde ela via tudo o que se passava com sua família, o sofrimento dos pais e irmãos, a busca pelo criminoso e o convívio perigoso de seu assassino com sua família. Sua morte abala a estrutura familiar, a mãe se afasta, o pai cai em desespero e seus irmãos, ficam aos cuidados da avó materna, pouco zelosa. De algum lugar, Susie sofria pelo que havia feito ou deixado de fazer, aprendendo a ver o mundo sem ela dentro.

 
 
Um Olhar sobre a Morte: Relacionando com o filme Um Olhar do Paraíso
 
A Morte costuma ser um Arcano rodeado de preconceitos. Quando sai em uma tiragem, há quem teme por mau agouro. Mas, quando se estuda de verdade este arcano descobrimos que não é bem assim que corre o rio.  

A Morte (Golden Botticelli Tarot)
Um dos principais significados deste Arcano refere-se ao fim de um ciclo, mas não é um fim repentino, a Morte fala de um processo de desligamento, de desapego, que não raramente, é doloroso, afinal, nos apegamos com muito facilidade a coisas, pessoas, situações. Não foi a toa que escolhi Um Olhar do Paraíso para ilustrar este Arcano, o filme mostra justamente esta visão processual da Morte. Quando Susie morre, não foi apenas a morte dela que mexeu com sua família, foi o fato de serem forçados a se desapegarem das lembranças e aprenderem a viver sem ela. Percebam o tempo que isso levou. No filme, mesmo após anos do assassinato de Susie, percebe-se que ela ainda está bastante presente na família, nem mesmo seu antigo quarto fora desarrumado, permanecendo da mesma forma como no dia em que desaparecera.
 Ora, mas assim como o décimo terceiro Arcano anuncia o fim, também nos enche com a promessa de uma jornada, lembrem-se de que estamos falando de um ciclo. E assim, Susie Salmon descobriu um mundo novo, cheio de possibilidades, mas para que pudesse desfrutar de onde estava também tinha que se desapegar de sua antiga vida, caso contrário, estaria acorrentada a mesma sina.

E como cantam em Essos, Valar Morghulis*. A Morte indica que um caminho foi fechado e que você não pode mais voltar, ela precisa acontecer. Mas o difícil não é lidar com o fato, é o depois, o luto, o que fazer, como fazer, por onde recomeçar. Deixar o que é para ir, ir embora não é tarefa fácil, embora saibamos que apenas dessa forma,será possível vislumbrar outros horizontes. Lembrando que aceitar não é o mesmo que estagnar, e sim reconhecer que alguns acontecimentos não podem ser mudados, que o único caminho a seguir é em frente. Deixando partes de você para traz a cada passo.  

Há um momento bastante significativo no filme, em que a mãe de Susie retorna ao quarto da filha, ela então pega o lençol e o agita, simbolizando que finalmente aceitara a morte de Susie. E a partir de então, pode ver a família maravilhosa que ainda estava com ela, ansiando pelo seu amor e atenção. 
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 *"Todos os homens devem morrer". (Expressão usada em As Crônicas de Gelo e Fogo do autor George R. R. Martin).

sábado, 20 de abril de 2013

Cartas na Mesa

Antes de iniciar propriamente o projeto, senti-me na obrigação de discorrer um pouco sobre o Tarot e suas vicissitudes, o que não é tarefa fácil, mas procurarei ser sucinta.

Penso que o primeiro erro que  todos cometemos ao iniciar os estudos sobre Tarot seja pensar que ele fala sobre destino, quando na verdade, fala sobre escolhas. Eu, pelo menos, jogo desde os doze anos, e levei um tempo para ter essa lição. Mas vejam só, quando foi que paramos de aprender?
Essa visão de Tarot ligado a destino talvez tenha surgido devido este ser considerado um oráculo. E oráculos mostram destinos, certo? Errado. Eles apontam caminhos, esclarecem situações e até questionam, nunca fornecem uma resposta pronta, nenhum oráculo toma a decisão por você. É um clichê, mas a premissa é verdadeira: a vida é feita de escolhas. Quando alguém pede a você para tirar o Tarot, ela tomou uma escolha e você também faz uma escolha quando tira o Tarot para esta pessoa. Lidar com as consequências das nossas escolhas é uma forma de adquirirmos experiência,  responsabilidade e maturidade. 

O trabalho do Tarot é interno e não externo. Quem procura o Tarot, está procurando por ajuda, quer uma solução que você não vai dar e isso preciso ficar claro. Por isso, as palavras de um tarólogo devem ser escolhidas a dedo. Se esta pessoa procurou ajuda, é porque confia no seu trabalho e você deve ser honesto com ela, o que não significa que você falará de qualquer jeito, mas deverá falar o que você vê e sente na tiragem.

É importante também que o consulente dê algo como pagamento, pois é uma forma dele dar uma moeda de troca pelo seu trabalho, de comprar o seu ofício. (Sim, tirar Tarot é um ofício). Reparem que quando eu pago alguém, estou estabelecendo um contrato, o que eleva a relação a um nível, digamos, mais profissional. O pagamento não precisa ser necessariamente dinheiro, mas deve ser algo significativo para o consulente. Esta troca não tem a ver com ganhar ou perder, mas com valorização do trabalho.

Mas o Tarot não é uma via de mão única, aquele que estuda sua simbologia também se transforma, afinal, o tarólogo é seu próprio instrumento de trabalho, é ele quem interpreta. Um tarólogo que não consegue relacionar situações do seu cotidiano com os Arcanos, está fadado ao fracasso. As cartas do Tarot falam sim, se você se permitir ouvir. E isso exige treino, vivências e estudos.


Bem, chegamos ao fim de mais um post. Estas foram as considerações que achei necessárias por ora. A próxima postagem será sobre o Arcano XIII: A Morte e o filme será uma surpresa. Aguardem!

Prelúdio

Sejam bem vindos ao Cine Tarot!

O objetivo deste projeto é convidar curiosos, profissionais e amantes do Tarot a conhecer e discutir a simbologia desta arte através do cinema. Funcionará da seguinte forma: para cada arcano, um filme/ personagem será apresentado e relacionado. Embora, seja eu quem esteja postando, outras interpretações serão bem-vindas.

 
O Tarot é um arte não só divinatória, como também vivencial, exigindo muito estudo e esforço de quem se dedica a ele. Ao passo que o cinema faz uso de uma linguagem visual e auditiva para acessar o emocional e racional, o que acabou promovendo a utilização de filmes como estudos de caso. Hoje, uma técnica comum, atual e divertida, sem falar em acessível. 
Ora se dispomos deste recurso, viva a tecnologia! Que seja utilizado para lazer e aprendizado.
 
Particularmente, são duas artes que me atraem e espero que agrade a você também, leitor.
Sinta-se a vontade, boa tiragem e bom filme!